Pasta de dentes x Gengivite

O mercado dos dentifrícios (pasta de dentes) nos oferece uma enorme variedade de opções, com propagandas bastante agressivas, e muitas vezes com informações cientificamente questionáveis. Surpreendentemente, o papel do Cirurgião-Dentista (CD) na indicação das pastas dentais tem sido colocado em segundo plano. Apesar de surpreendente, é fácil de entender. É muito mais rentável vender o produto direto ao consumidor. E isso é perfeitamente legal, por mais que nos incomode, uma vez que a pasta dental é considerada um cosmético. Facilitar a escovação sempre foi, e provavelmente sempre será, sua principal função. A presença de flúor na composição da pasta a tornou ainda mais eficiente para seu propósito. Sempre lembrando que quem faz o trabalho “pesado” é a escova de dentes, com o auxílio do fio dental, utilizados dentro de uma técnica apropriada, uma vez que a remoção da placa bacteriana é expressivamente realizada por meios mecânicos.

O assunto fica confuso e atravessa algumas fronteiras perigosas quando o dentifrício é oferecido para pacientes com doença periodontal. Tanto a gengivite, uma forma reversível da doença periodontal que atinge apenas o tecido de proteção, quanto a periodontite, uma lesão irreversível que atinge os tecidos de proteção e inserção do dente, são consideradas doenças. Considerando ainda que o diagnóstico diferencial entre essas duas lesões é dependente de um exame clínico realizado pelo CD, e consequentemente, o planejamento do possível tratamento depende desse diagnóstico, se torna inadequado, e até perigoso, sugerir a um paciente com sinais clínicos de doença periodontal que faça apenas um tratamento caseiro, sem avaliação profissional.

Mas por que seria perigoso? A resposta também é bem simples. Os sinais clínicos relatados por um indivíduo com doença periodontal são: a alteração na coloração da gengiva, a presença de edema, e sangramento ao toque e/ou espontâneo. A duas primeiras, coloração e edema, são sinais clássicos da inflamação. Já o sangramento mostra algo a mais. Considerando o paciente como um indivíduo não portador de discrasias sanguíneas (o que, diga-se de passagem, precisaria de um exame para ser descartado), o sangramento geralmente é causado por micro-ulcerações no tecido epitelial que reveste a gengiva. Essa “falha na vedação “expõe o tecido conjuntivo subjacente, aumentando o risco de contaminações internas. Além disso, é muito difícil que o paciente saiba se já houve perda de tecido ósseo em torno dos dentes, ou se ele apresenta apenas gengivite. A periodontite não tratada pode ser um fator de risco para doenças coronarianas, AVC, doenças renais, e por aí vai. E esse é o perigo. O paciente poderia estar utilizando uma pasta de dentes achando que está se tratando, mas na verdade, está mascarando uma doença que pode trazer conseqüências sérias para sua saúde geral.

Mas por que alguns pacientes sentem melhoras só com o uso dos dentifrícios? Isso também é fácil de responder, e perigoso. O fator etiológico primário de sua inflamação gengival é a placa bacteriana. A inflamação que acomete os tecidos serve para protegê-lo e sinalizar para o indivíduo que algo está errado. Mas quando você usa um produto que “ameniza” a sintomatologia sem tratar a causa, é possível que a lesão progrida sem o devido tratamento. Esse quadro piora quando o paciente se automedica com antibióticos e/ou antiinflamatórios. A falsa sensação de melhora é seguida por um novo ciclo da doença ainda mais agressivo, provavelmente causado por bactérias ainda mais fortes, selecionadas pelo mal uso de medicamentos, sem o acompanhamento profissional.

A conclusão que podemos chegar é que as pastas de dentes devem cumprir o seu papel como cosméticos. Sendo bem utilizadas, funcionam como um excelente auxiliar ao cirurgião-dentista, tanto na prevenção das doenças cárie e periodontal, quanto na manutenção da saúde após a execução de um tratamento. Já a divulgação de efeitos na gengivite, forma mais branda da doença periodontal, deve ser vista com reservas. Deveria ficar bem claro que o paciente precisa procurar o seu CD ao perceber alterações na sua gengiva e, dependendo da indicação do seu dentista,  utilizar essa ou aquela pasta dental. Do jeito que temos observado recentemente, existe um grande risco do consumidor sofrer as conseqüências de uma propaganda tendenciosa e acreditar que a pasta dental basta para o controle de sua doença. Incorrendo no risco de mascarar os sinais clínicos da doença, apresentar progressão do quadro, e obviamente, arcar com as consequências de possíveis efeitos sistêmicos a longo prazo. Procure seu dentista e solicite a melhor indicação para o seu caso!

Equipe Periomedica.com

Filed Under: Informações

Comentários (3)

karla cherman

maio 12th, 2013 at 1:08 AM    


Excelente texto!!!!

cmfigueredo

maio 17th, 2013 at 8:25 PM    


Muito obrigado pelo elogio Karla!
Um abraço
Carlos Marcelo Figueredo

Marcia Cleto

agosto 24th, 2013 at 1:51 AM    


Muito bom! A anos, vejo que a industria nos delega um papel secundário. Como as pessoas preferem soluções mais simples e “baratas”a industria cosmética se aproveita. Parabéns!
Marcia

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